o mago
Estudar Hidrologia (e modelos hidrológicos) durante meu doutorado teve um impacto bem maior do que eu imaginava nas minhas percepções mais firmes sobre a realidade.
A principal culpa disso não foram os meus colegas nem professores locais, no IPH, mas os artigos e livros de um certo hidrólogo britânico, o Keith Beven. Esse sujeito, além de parecer um mago do tipo Merlin ou Gandalf, consegue fazer da Hidrologia uma ciência muito mais interessante (e misteriosa) do que eu havia sequer pensado.
Uma situação hilária, que está gravada no YouTube, é quando ele conversa com outro hidrólogo eminente, o canadense Jeffrey J. McDonnell. Nesse caso, após ser apresentado para ministrar uma palestra, o Beven recomenda que os alunos na audiência não leiam todos os livros e artigos dele — sob o risco de jamais conseguirem terminar seus mestrados ou doutorados.
No final de 2021 (já vacinado para covid), em um congresso no formato híbrido, tive a oportunidade de fazer algumas perguntas diretamente a para ele, pela tele-conferência. Lembro que ele me desejou uma boa sorte nos meus estudos.

as incertezas
A incerteza pode até ser desconfortável, mas a certeza é absurda. (Voltaire)
O problema da Hidrologia é que existe uma escassez enorme de dados nas escalas de tempo e espaço realmente relevantes para se entender exatamente o que acontece.
Na hora de construir modelos computacionais, essa falta de informações nos força a listar uma série de premissas que dificilmente podem ser conferidas (ou refutadas) na prática. O resultado disso são incertezas epistemológicas, e não estatísticas, associadas aos resultados dos modelos.
Por exemplo, o fluxo de água em um rio pode ser de 1 m³/s; mas pode também ser 1.3 m³/s, ou mesmo 0.8 m³/s. Não temos muitas condições de afirmar qual número está realmente certo. Uma situação ainda pior é quando números muito próximos podem ser obtidos de sistemas e modelos bastante diferentes, nos deixando novamente sem muita solidez em nossas afirmações objetivas.
Não causa surpresa que o Beven, um geógrafo de formação, nunca foi muito bem compreendido pela comunidade científica da Hidrologia, fortemente dominada por engenheiros…
a magia
Nada como a água para ser algo incerto, misterioso, que causa um certo arrepio, mesmo medo. A fluidez, a beleza, a dádiva. O perigo, a violência. Reflexos, ilusões, padrões evanescentes.
Como Carla Madeira escreveu, a água integra um fluxo poético do Rio que flui para o Oceano. “Tudo é rio”.
As incertezas da Hidrologia, uma Ciência de números, dialoga muito com a arte, com as percepções subjetivas. Não por acaso, o próprio Keith Beven se dedica hoje a fazer arte, no caso a fotografia.
E por menos acaso ainda, reconhece profundamente a magia da água e das paisagens de Cumbria, a região que ele mora na Inglaterra.
Como na arte nada se cria, tudo se copia, eu decidi seguir o exemplo dele. Nesse blog, irei divulgar junto aos posts a minha produção fotográfica das águas Sul-Americanas.
(águas que são muito, mais muito mais misteriosas que as da Inglaterra!)
Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Cachoeira Garapiá, Maquiné, RS
Data: Janeiro de 2023

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