Endoscopia hidrológica
Nos últimos dias, precisei visitar uma otorrinolaringologista por causa de uma sinusite persistente e misteriosa.
Durante a consulta, a médica me supreendeu ao introduzir um pequeno tubo pelo meu nariz e me orientou a olhar para uma tela. Naquele momento, vi com nitidez o interior da minha própria faringe — uma imagem clara da infecção em curso, avermelhada e inflamada.
Foi desconfortável, revelador, e me levou a tomar um antibiótico.

A experiência de observar o funcionamento interno do corpo em tempo real me fez pensar sobre como, na hidrologia (e outras ciências ambientais), recorremos a estratégias semelhantes para entender a dinâmica da natureza.
Assim como a medicina se vale de câmeras e sensores para observar processos internos e invisíveis, também buscamos enxergar a “fisiologia” da paisagem, os ciclos hidrológicos, sedimentológicos e biogeoquímicos. No lugar de endoscópios, usamos sensores in situ e em órbita.
As grandes enchentes
Foi com isso em mente que explorei as imagens do satélite Amazônia-1, disponíveis no catálogo do INPE, no contexto das grandes enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em setembro de 2023 e maio de 2024.
Apesar de retratar um verdadeiro desastre, fruto da nossa própria incompetência como sociedade, é possível ver também uma beleza sublime de padrões dinâmicos.



Com elas, se revelam o caminho dos sedimentos, a duração da suspensão particulada no Lago Guaíba e na Laguna dos Patos, o tempo que levam para decantar ou seguir até o Oceano Atlântico.

Plumas de lama que avançam e retraem no Estuário da Laguna, com a interação dinâmica da entrada da água salgada.


A foto vira filme
Com alguma programação, é possível montar animações que tornam visível essa dinâmica fluida e temporária.

Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Lago Guaíba, Menino Deus
Data: Outono de 2025

Deixe um comentário