o risco global
Era uma vez um tempo em que a informação era um recurso raro. Jornais, apresentadores de TV e alguns poucos especialistas nos diziam o que estava acontecendo. Manipulada? Muitas vezes. Mas, pelo menos, era curada.
Aí chegaram os smartphones, as redes sociais e a máquina algorítmica do caos. De repente, todo mundo virou transmissor — do seu tio no grupo da família no WhatsApp até youtubers que acabaram de descobrir a palavra “hidrologia” ou a vereadora que acredita que entende alguma coisa de hidráulica.
Esse novo sistema é difuso e disruptivo e, em vez de clareza, entrega barulho. Paramos de nos ouvir, enquanto a desinformação escalou para uma classe de risco global.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, depois das enchentes históricas, o debate público também transbordou de ideias mirabolantes sobre dragagem de rios e abertura de novos canais, como se cada cidadão tivesse, em segredo, um diploma de engenharia de recursos hídricos.

estórias
Sejamos sinceros: dados não são o problema. Existem petabytes por aí. Informação? Também temos de sobra, livros e artigos não faltam. O gargalo real é a comunicação.
Veja como essa falha de comunicação é desgraçada: um grupo de pesquisa pode passar anos perfurando um testemunho de gelo na Antártica, analisando amostras, publicando resultados revisados por pares e mostrando cuidadosamente que o clima está aquecendo.
Enquanto isso, o seu primo pode filmar o frio lá fora e postar no Instagram: “Cadê o aquecimento global agora?”. Adivinha qual viraliza primeiro.
Por isso, não dá mais para “publicar e rezar”. Precisamos aprender a contar estórias, não apenas apresentar fatos. Fatos sozinhos não viajam. Narrativas, sim.
o debate
Existe uma armadilha perigosa nesse novo mundo da comunicação: o convite para debater com youtubers, influenciadores ou mesmo políticos que falam de ciência sem qualquer formação técnica. Parece uma boa ideia — “vamos confrontar com argumentos racionais, vamos expor as falhas”. Mas é justamente aí que mora o erro.
Colocar um cientista lado a lado com alguém que vive de criar teorias conspiratórias é dar a impressão de que existem “dois lados válidos”. Mesmo que o cientista esmague o oponente com fatos, gráficos e lógica, o público fiel do influencer vai ignorar tudo e continuar acreditando nele. Pior: só o ato de dividir o palco já dá ao influenciador uma legitimidade que ele não tinha.
Na prática, o resultado é que a ciência entra no jogo errado, no campo da polêmica e do espetáculo, onde os fatos não são a moeda principal.
Naomi Oreskes
Poucas vozes bateram tanto nessa tecla quanto Naomi Oreskes, eminente filósofa e historiadora da ciência. O trabalho dela mostra, por exemplo, como indústrias como a do tabaco e a dos combustíveis fósseis sequestraram o debate público explorando a relutância dos cientistas em se engajar com a sociedade.
O alerta dela é simples: a ciência não pode mais viver na torre de marfim. Ainda mais nos tempos modernos de redes sociais.
Em uma entrevista recente, ela disse algo que pega fundo:
sempre que se discute orçamento, cientistas preferem comprar outro equipamento, pagar mais alunos ou trocar de computador — qualquer coisa, menos investir em comunicação.
Para a maioria, comunicação parece função de outra pessoa, talvez do setor de relações públicas da Universidade. Mas a verdade é que ninguém está em melhor posição para explicar a ciência do que o próprio cientista que a faz.
É óbvio que precisamos de comunicadores, jornalistas, designers. Mas também precisamos assumir a responsabilidade de contar a história do nosso próprio trabalho. Caso contrário, alguém vai contar por nós — e, geralmente, mal.
camadas
O que seria, então, uma comunicação melhor? Primeiro, pensar em diferentes camadas de público.
- Gestores e tomadores de decisão não precisam de um paper na Nature em inglês. Eles precisam de documentos em bom português, com linguagem clara e visuais convincentes que guiem a interpretação.
- O público geral não consegue digerir tabelas de dados hidrológicos. Eles precisam de gráficos anotados, esquemas, fotos e narrativas que mostrem tanto o quê quanto o porquê .
- Os jovens também importam. Se não chegarmos até eles com clareza hoje, amanhã eles vão herdar as conspirações malucas.
E aqui a tecnologia pode nos ajudar — ironicamente, a mesma tecnologia que espalha desinformação. Podemos usar ferramentas como Illustrator, CorelDRAW ou o Inkscape para pós-processar gráficos, tornando-os não apenas corretos, mas também persuasivos.
Um gráfico cru, gerado no R ou no Python, pode conter uma informação objetiva, mas um gráfico cuidadosamente anotado pode prender a atenção. Podemos enriquecer os visuais com chamadas, fotografias de contexto ou até versões mais simples que funcionem tanto em slides quanto em relatórios.

storytelling com dados
Aqui entra uma recomendação que considero leitura obrigatória: Storytelling com Dados, de Cole Knaflic. Esse livro é uma verdadeira provocação. Ele mostra como transformar dados em informação e, principalmente, informação em comunicação.
E faz isso sem recorrer a softwares avançados: a autora usa apenas o Excel — o que pode soar como uma heresia para quem trabalha com dados a partir de Python ou R. Mas o gesto é intencional: provar que comunicação eficiente não depende de tecnologia sofisticada, e sim de clareza, simplicidade e propósito.
Na era pré-internet, bastava o gráfico “neutro”. Hoje, é preciso contar uma história — ou o gráfico será simplesmente ignorado.
Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Lago Guaíba, Menino Deus
Data: Inverno de 2025

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