a era da comunicação

o risco global

Era uma vez um tempo em que a informação era um recurso raro. Jornais, apresentadores de TV e alguns poucos especialistas nos diziam o que estava acontecendo. Manipulada? Muitas vezes. Mas, pelo menos, era curada.

Aí chegaram os smartphones, as redes sociais e a máquina algorítmica do caos. De repente, todo mundo virou transmissor — do seu tio no grupo da família no WhatsApp até youtubers que acabaram de descobrir a palavra “hidrologia” ou a vereadora que acredita que entende alguma coisa de hidráulica.

Esse novo sistema é difuso e disruptivo e, em vez de clareza, entrega barulho. Paramos de nos ouvir, enquanto a desinformação escalou para uma classe de risco global.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, depois das enchentes históricas, o debate público também transbordou de ideias mirabolantes sobre dragagem de rios e abertura de novos canais, como se cada cidadão tivesse, em segredo, um diploma de engenharia de recursos hídricos.

Praia arenosa, Menino Deus. Lago Guaíba (Outono 2025).

estórias

Sejamos sinceros: dados não são o problema. Existem petabytes por aí. Informação? Também temos de sobra, livros e artigos não faltam. O gargalo real é a comunicação.

Veja como essa falha de comunicação é desgraçada: um grupo de pesquisa pode passar anos perfurando um testemunho de gelo na Antártica, analisando amostras, publicando resultados revisados por pares e mostrando cuidadosamente que o clima está aquecendo.

Enquanto isso, o seu primo pode filmar o frio lá fora e postar no Instagram: “Cadê o aquecimento global agora?”. Adivinha qual viraliza primeiro.

Por isso, não dá mais para “publicar e rezar”. Precisamos aprender a contar estórias, não apenas apresentar fatos. Fatos sozinhos não viajam. Narrativas, sim.


o debate

Existe uma armadilha perigosa nesse novo mundo da comunicação: o convite para debater com youtubers, influenciadores ou mesmo políticos que falam de ciência sem qualquer formação técnica. Parece uma boa ideia — “vamos confrontar com argumentos racionais, vamos expor as falhas”. Mas é justamente aí que mora o erro.

Esquete Porta dos Fundos, em que ocorre um debate absurdo entre uma cientista e o primo de alguém.

Colocar um cientista lado a lado com alguém que vive de criar teorias conspiratórias é dar a impressão de que existem “dois lados válidos”. Mesmo que o cientista esmague o oponente com fatos, gráficos e lógica, o público fiel do influencer vai ignorar tudo e continuar acreditando nele. Pior: só o ato de dividir o palco já dá ao influenciador uma legitimidade que ele não tinha.

Na prática, o resultado é que a ciência entra no jogo errado, no campo da polêmica e do espetáculo, onde os fatos não são a moeda principal.


Naomi Oreskes

Poucas vozes bateram tanto nessa tecla quanto Naomi Oreskes, eminente filósofa e historiadora da ciência. O trabalho dela mostra, por exemplo, como indústrias como a do tabaco e a dos combustíveis fósseis sequestraram o debate público explorando a relutância dos cientistas em se engajar com a sociedade.

O alerta dela é simples: a ciência não pode mais viver na torre de marfim. Ainda mais nos tempos modernos de redes sociais.

Naomi Oreskes em uma entevista recente: cientistas não querem gastar dinheiro em comunicação.

Em uma entrevista recente, ela disse algo que pega fundo:

sempre que se discute orçamento, cientistas preferem comprar outro equipamento, pagar mais alunos ou trocar de computador — qualquer coisa, menos investir em comunicação.

Para a maioria, comunicação parece função de outra pessoa, talvez do setor de relações públicas da Universidade. Mas a verdade é que ninguém está em melhor posição para explicar a ciência do que o próprio cientista que a faz.

É óbvio que precisamos de comunicadores, jornalistas, designers. Mas também precisamos assumir a responsabilidade de contar a história do nosso próprio trabalho. Caso contrário, alguém vai contar por nós — e, geralmente, mal.


camadas

O que seria, então, uma comunicação melhor? Primeiro, pensar em diferentes camadas de público.

  • Gestores e tomadores de decisão não precisam de um paper na Nature em inglês. Eles precisam de documentos em bom português, com linguagem clara e visuais convincentes que guiem a interpretação.
  • O público geral não consegue digerir tabelas de dados hidrológicos. Eles precisam de gráficos anotados, esquemas, fotos e narrativas que mostrem tanto o quê quanto o porquê .
  • Os jovens também importam. Se não chegarmos até eles com clareza hoje, amanhã eles vão herdar as conspirações malucas.

E aqui a tecnologia pode nos ajudar — ironicamente, a mesma tecnologia que espalha desinformação. Podemos usar ferramentas como Illustrator, CorelDRAW ou o Inkscape para pós-processar gráficos, tornando-os não apenas corretos, mas também persuasivos.

Um gráfico cru, gerado no R ou no Python, pode conter uma informação objetiva, mas um gráfico cuidadosamente anotado pode prender a atenção. Podemos enriquecer os visuais com chamadas, fotografias de contexto ou até versões mais simples que funcionem tanto em slides quanto em relatórios.

Exemplo de visualização para gestores e técnicos não-acadêmicos que vai além de gráficos “crus”, mas faz uma apresentação intuitiva da informação, com um render 3D da topografia, imagens e chamadas com anotações.

storytelling com dados

Aqui entra uma recomendação que considero leitura obrigatória: Storytelling com Dados, de Cole Knaflic. Esse livro é uma verdadeira provocação. Ele mostra como transformar dados em informação e, principalmente, informação em comunicação.

E faz isso sem recorrer a softwares avançados: a autora usa apenas o Excel — o que pode soar como uma heresia para quem trabalha com dados a partir de Python ou R. Mas o gesto é intencional: provar que comunicação eficiente não depende de tecnologia sofisticada, e sim de clareza, simplicidade e propósito.

Na era pré-internet, bastava o gráfico “neutro”. Hoje, é preciso contar uma história — ou o gráfico será simplesmente ignorado.


Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Lago Guaíba, Menino Deus
Data: Inverno de 2025

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