acho que vai descer uma água

Acho que vai descer uma água, ein

Foi o que eu escrevi em 29 de Abril de 2024, há um ano, em um grupo de WhatsApp de professores e alunos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas. O grupo fora criado em Setembro de 2023, no contexto das fortes enchentes que inundaram cidades do Vale do Taquari.

Há um ano, eu enviava uma mensagem em um grupo de WhatsApp. A partir daí a realidade se tornou cinematográfica.

Esse grupo ficou novamente ativo em Novembro de 2023, quando outras chuvas causaram novas enchentes, dessa vez atingindo Porto Alegre e a região metropolitana. Nessa ocasião, eu ajudei a fazer um material para a imprensa, que foi divulgado para ilustrar o que aconteceria se uma enchente como a de 1941 ocorresse de novo, sem o sistema de proteção de diques. Saiu no G1 e no Correio do Povo.

Sem sistema de proteção, Guaíba inundaria aeroporto, Mercado Público e estádios, diz estudo | Rio Grande do Sul | G1

Mapa interativo compara as maiores cheias da história de Porto Alegre

Nada se cria, tudo se copia. A ideia do mapa já havia sido alvo do Trabalho de Conclusão de Curso do meu querido amigo e colega, o Eng. José Augusto Müller Neto. Mas em 2023, o mapa precisava ser mais interativo e customizado para a divulgação.

Avançando para o final Abril de 2024, a realidade estava para se tornar muito mais cinematográfica.

Depois da mensagem que enviei no grupo, vivemos o advento do maior desastre hidro-climático da história Brasil. A partir daquele momento, parece que entrei em uma viagem psicodélica de terror que não acabava nunca. Quando consegui parar de trabalhar, perto do final de Maio, a impressão que eu tinha era de que anos haviam se passado.

Roteador de informações

O resultado de tanto trabalho foi a formação de uma rede de pesquisadores que, de alguma forma milagrosa, conseguiram se articular para comunicar informações importantes para a sociedade.

Em primeiro de Maio, por exemplo, o Eng. Matheus Sampaio, junto com os professores Rodrigo Paiva e Fernando Fan, iniciou uma série de previsões de nível para o Lago Guaíba. Essas previsões eram feitas em um computador pessoal, a partir da simulação de modelos hidrológicos e hidrodinâmicos, com dados publicamente disponíveis. Os resultados eram divulgados na página do Instituto na forma de boletins.

Com base na previsão do dia 2 de Maio, a Eng. Ambiental Sofia Royer gentilmente me intimou a produzir mapas de risco para Porto Alegre, análogos aos de Novembro de 2023. Foi aí que começaram as atividades enlouquecedoras. Ainda na noite do dia 2 de Maio, postei no blog do GESPLA um mapa de risco e enviei a praticamente todos os meus contatos a seguinte mensagem:

Pessoal, espero que estejam todos bem. Temos um cenário crítico para Porto Alegre nas próximas horas e dias. É possível que a cheia iminente ultrapasse qualquer registro histórico, inclusive a 1941. Em um dos cenários simulados recentemente no IPH, é possível que o sistema de proteção contra as cheias (muro e diques) não dê conta. Nesse caso, a água do Rio Jacuí e do Lago Guaíba iria inundar grande parte de Porto Alegre, assim como em 1941. Não seria mais alagamentos da água interna, mas a entrada da água externa. Confiram no mapa interativo no link abaixo as áreas que possivelmente seriam afetadas nesse cenário (por exemplo, olhando na cheia de 1941). Esse cenário é extremo, mas é preciso considerar que é uma possibilidade. O ideal não é entrar em pânico, mas considerar esse cenário com seriedade. O link também fornece outros recursos e informações, possivelmente atualizadas. Um abraço. Iporã Possantti, engenheiro Ambiental, Doutorando no IPH/UFRGS (em 2/5/2024). https://www.ufrgs.br/warp/2024/05/02/mapas-das-cheias-historicas-em-porto-alegre/

Na manhã de sexta-feira, no dia 3 de Maio, esse texto serviu de base para uma mensagem institucional do IPH, divulgada na GZH.

Hidrólogos pedem que Porto Alegre prepare evacuação; veja como seria inundação | GZH

Ao mesmo tempo que os professores do Instituto escreviam essas mensagens oficiais, eu precisava explicar o mapa para um colega da Casa Civil, que apurava diretamente na fonte a situação para relatar ao Gabinete do Presidente da República. Cenas como essas passaram a se repetir. A minha vida, assim como de muitos outros cientistas, tornava-se algo como um roteador de informações pelos próximos 30 dias.

A síntese de tudo

Graças à competência técnica de muitos colegas, em 10 dias conseguimos organizar os materiais em um site que fazia a síntese de tudo, que ficou conhecido por “repositório de mapas”.

Eu e o Eng. José Augusto tivemos a sorte continuar com luz e internet no que chamamos de “Houston”. Com outros colegas, trabalhamos por três turnos ao longo de muitos dias no repositório de mapas, bancos de dados e análises da enchente. Banho, só de balde, e com água de uma fonte no Morro das Abertas.

O banco de dados que criamos (em uma velocidade insana), foi muito útil para outros pesquisadores independentes a calcular o tamanho do desastre. Pesquisadores do IPEA, por exemplo, a pedido do Ministério do Desenvolvimento Social, usaram os dados para estimar o volume de recursos para auxílios aos desabrigados.

Mais adiante, ainda em 2024, conseguimos retomar atividades mais apropriadas para pesquisadores, como escrever artigos científicos sobre o que ocorreu. Tive o privilégio de trabalhar na escrita e nas visualizações de um artigo que descreve o desastre em termos hidrológicos, recentemente publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos.

Outro artigo interessante, que estou coordenando, focaliza em um relato mais abrangente sobre nossas atividades. Ainda não foi publicado, mas rascunho dele, em português, pode ser acessado no seguinte link:

Um relato sobre a experiência da comunicação de riscos por pesquisadores voluntários durante o desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul, Brasil (dados e preprint)

Quando que teremos paz?

Confesso que a enchente de 2024 não me deixou impressionado com os níveis altos das águas. Mas admito ter ficado surpreso com nível baixo de capacidade técnica das administrações públicas no Rio Grande do Sul.

Um exemplo que nunca vou cansar de repetir foi a decisão da Prefeitura de Porto Alegre de criar um abrigo no Pepsi On Stage, ignorando qualquer orientação técnica sobre o risco hidrológico daquela área. Trocaram de local apressadamente, logo antes do local ser completamente inundado. Conclusão: não existia um plano.

Se ocorrer uma nova enchente hoje, quem irá oficialmente informar com antecedência razoável os níveis dos rios nas principais cidades do Estado? Onde que um cidadão comum pode abrir um mapa interativo oficial e saber o grau de risco hidrológico de um lugar qualquer? Ou saber, oficialmente, a última data de manutenção de uma comporta, de uma casa de bombas?

Todos nós, técnicos, sabemos que já existem dados e métodos para se ter um ponto de partida muito robusto nesse sentido. Já existem iniciativas exemplares, como o SACE, do serviço geológico, ou o estudo de 2018 da Metroplan.

Mas em linhas gerais (e posso estar sendo injusto) parece que, em um cenário de repetição, iremos depender dos boletins voluntários dos meus colegas, de simulações feitas em computadores pessoais. Então alguém terá que fazer mapas de risco e divulgá-los na internet.

De novo.

Quando que teremos paz?


Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Cascata do Garapiá
Data: Verão de 2024

Comentários

Uma resposta para “acho que vai descer uma água”.

  1. Avatar de bruno collischonn
    bruno collischonn

    perfeito Iporá. Houve muita ação no pos-enchente, algumas úteis, outras nem tanto. Mas a indefinição sobre a previsão e alerta hidrológico permanecem.

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