zênite

prefiro caçar mamutes

Se um gênio da lâmpada me oferecesse um único desejo, eu consideraria seriamente me transportar para o Neolítico. Praticar a caça e a coleta. Viver em comunhão com uma tribo pequena. Construir templos para os deuses na primavera, caçar mamutes no verão, migrar para as florestas no inverno.

Nessa época, a chance de morrer dilacerado por um tigre dente-de-sabre seria bem maior. Mas ao menos seria uma vida com um enredo profundamente humano. E a agonia fatal duraria poucos minutos.

A vida contemporânea, em comparação, pode muito bem ser uma eternidade absurda e sem sentido. Mesmo historiadores “pop” como Yuval Harari admitem: não há evidências se somos em média mais felizes hoje do que há 20 mil anos. Existe progresso técnico, mas não necessariamente existencial.


burocratas úteis

E o nosso contexto é esse: uma sociedade em que, se você não herdou uma fortuna, você vai precisar trabalhar para os outros. O sociólogo Jessé Souza explica que, para quem não detém capital material — terras, fábricas, imóveis, investimentos – só resta uma alternativa digna: acumular capital cultural. Ou seja, aprender a fazer algo que tenha algum valor e utilidade para os outros.

Olhando bem, a classe média é isso: uma camada social de burocratas úteis. É a parcela da população que detém um estoque considerável de linguagem, conhecimento técnico, capacidade de navegar nas instituições. De fazer projetos sairem do papel.

Ainda assim, os membros da classe média raramente conseguem se tornar proprietários capitalistas. Em geral, eles trabalham a vida inteira para, quem sabe, adquirir um par de imóveis. Ou nem isso.


um guia

Dito isso, acho que ficou claro que não romantizo o trabalho. Se pudesse, viveria de outra forma. Mas tendo que trabalhar, que seja com alguma inteligência.

Com isso em mente, fiz uma síntese de oito princípios que contribuem nesse sentido. Por pura diversão, eu chamo eles de zênite. Cada princípio possui uma sigla engraçada em inglês para ajudar na memorização. São orientações para quem, como eu, precisa produzir — mas quer acima de tudo respirar.

A versão completa em inglês está sendo mantida atualizada neste link.

Essas regras são o resultado de uma trajetória modesta de trabalho, principalmente acadêmico. A ênfase é muito maior para burocratas da informação que, como eu, vivem de operar computadores digitais e buscam resultados baseados em projetos. Cientistas e técnicos são os principais focos, ao contrário de fisioterapeutas, por exemplo. Mas acredito que sejam princípios genéricos o suficiente para outras profissões.

Obviamente, além da minha experiência, essa lista teve a influência uma dúzia de leituras, vídeos e palestras sobre crescimento pessoal e autoajuda, algumas muito boas, outras nem tanto. Entre o caos de autores, eu recomendo fortemente as dicas do Cal Newport e do Greg McKeown.


os princípios

1. CALM – Conscious Allocation of Life and Momentum

(Alocação Consciente da Vida e do Ritmo)

Tempo = Vida

Explicação

Coloque a vida em primeiro lugar. O trabalho é um meio. A vida é o fim. O propósito do trabalho é servir a uma vida plena — não consumi-la. Uma vida significativa deve ser vivida não apenas no futuro, mas no presente: através de alegria, diversão, descanso, esportes, relacionamentos, natureza e qualquer coisa que traga significado. O trabalho deve possibilitar essas coisas, não adiá-las indefinidamente. Estruture o tempo para proteger a vida. Desenhe um calendário que equilibre esforço com presença. Otimize processos não apenas para a produtividade, mas para abrir espaço para o que realmente importa — agora e depois.

Implicação

Use o tempo para priorizar a vida.

  • Divida o trabalho em criativo (valor), administrativo (habilitador) e networking (construção de futuro);
  • Agrupe esses tipos de trabalho em sessões profundas e agende-as cuidadosamente para reduzir os custos cognitivos de troca;
  • Estruture o tempo em todas as escalas — dia, semana, estação e ano;
  • Aplique limites rigorosos entre trabalho e vida para proteger o tempo para saúde, diversão e presença;
  • Otimize sistemas e fluxos de trabalho para criar espaço intencional para significado e descanso;

Moderação

CALM não é passividade — é ritmo controlado.

  • CALM não é simplesmente pegar leve — é design consciente de esforço e descanso;
  • Trabalhe com foco e disciplina durante o tempo estruturado;
  • Aceite momentos de esforço intenso quando eles servem ao lançamento, entrega ou responsabilidade;
  • Recupere-se intencionalmente após as maratonas, mas não as evite quando necessário;
  • Viva plenamente no presente, mas construa sistemas que apoiem um futuro significativo;

2. PRINT – Publish Results or It’s Not There

(Publique os Resultados ou Eles Não Existem)

Publicar = Existir

Torne o trabalho visível para todos. Cada projeto deve produzir um resultado compartilhável que seja belo, compreensível e impactante. Se não for visível, é como se não existisse. Abra caminho para o reconhecimento público e o respeito dos colegas. Publique ou suma.

Implicação

Visibilidade é prova de existência.

  • Entregue resultados públicos e citáveis ao final de cada projeto;
  • Priorize projetos que permitam publicidade em vez de trabalho oculto e sem saída;
  • Concentre-se em resultados imprimíveis, orientados ao papel — o papel pode durar séculos;
  • Extraia e compartilhe fragmentos publicáveis quando a divulgação completa não for possível;
  • Deixe a publicação demonstrar utilidade e deixar um rastro de portfólio;

Moderação

Publicar não é um objetivo, mas um indicador para impacto.

  • Deixe o refinamento apoiar a relevância para o público, não para você;
  • Evite despejar conteúdo e volume de produção superficial;
  • Publique apenas quando qualidade e clareza estiverem presentes;
  • Respeite as restrições do projeto — reutilize material, dados e modelos posteriormente, se necessário;
  • Não confunda visibilidade com impacto — alinhe ambos;

3. GRACE – Give Results A Clear Elegance

(Dê aos Resultados uma Elegância Clara)

Beleza = Valor

Explicação

Torne o trabalho belo. Deixe cada resultado — figura, texto, relatório, conjunto de dados, base de código — carregar um senso de elegância, clareza e forma expressiva. A beleza dá significado ao esforço. Um diagrama bem elaborado, uma função nomeada cuidadosamente, um layout limpo — tudo eleva o trabalho além da mera utilidade. Use criatividade, clareza visual e estilo narrativo para inspirar. Deixe o resultado refletir cuidado.

Implicação

Beleza é valor tornado visível — e preferido.

  • Desenhe os resultados para serem claros, legíveis e esteticamente agradáveis;
  • Use documentação expressiva e linguagem ponderada para elevar a percepção;
  • Nomeie processos e estruturas criativamente quando apropriado, preservando a clareza;
  • Refine figuras e layouts para harmonia visual, não apenas precisão;
  • Quando a qualidade técnica for igual, o resultado mais elegante e belo conquistará a confiança do público;

Moderação

GRACE deve servir à comunicação, não ao ego.

  • Deixe a elegância aprimorar a compreensão — não substituí-la;
  • Não aperfeiçoe demais — publique quando a clareza for alcançada;
  • Evite tratar cada projeto como uma obra-prima — continue aprendendo para o próximo projeto;
  • Adapte a beleza ao público — mantenha os resultados acessíveis, não excessivamente pessoais ou obscuros;
  • Use a criatividade em conceitos abrangentes, mas mantenha a clareza e a padronização na nomenclatura técnica;

4. DRY – Don’t Repeat Yourself

(Não se Repita)

Reúso = Eficiência

Explicação

Evite duplicação. Construa sistemas reutilizáveis. Cada esforço deve contribuir para a infraestrutura de longo prazo através de código modular, modelos, dados estruturados e processos automatizados.

Implicação

Deixe seu trabalho se acumular ao longo do tempo.

  • Avalie como cada projeto pode contribuir para alguma forma de recurso útil em outros projetos (agora e no futuro);
  • Use automação para reduzir a repetição manual de protocolos previsíveis e tediosos;
  • Crie modelos para tudo: projetos, notas, documentos, apresentações, código, etc.;
  • Escreva código reutilizável escrevendo módulos, pacotes e bibliotecas genéricos;
  • Desenhe um sistema para armazenar, recuperar e atualizar conjuntos de dados para que você não precise baixá-los e organizá-los todas as vezes;

Moderação

Nem toda reutilização começa no primeiro dia.

  • Reutilização é um horizonte — não um pré-requisito;
  • Evite construir demais antes que os padrões emerjam;
  • Use documentação simples para implementar soluções rápidas quando o tempo for curto;
  • Expanda a generalidade apenas quando houver demanda;
  • Melhore os sistemas iterativamente, não de uma vez;

5. KISS – Keep It Simple and Smart

(Mantenha Simples e Inteligente)

Simplicidade = Flexibilidade

Explicação

Favoreça a simplicidade. Deixe a complexidade emergir das partes simples. Construa sistemas com máxima interoperabilidade. Escolha ferramentas abertas, formatos transparentes e design modular. Evite hype, engenharia excessiva e dependências de caixa preta.

Implicação

Comece simples — dimensione apenas com a necessidade.

  • Use ferramentas leves e evite dependências desnecessárias;
  • Favoreça estruturas modulares em vez de sistemas emaranhados;
  • Escreva código e documentação que sejam claros sem explicações profundas;
  • Escolha ferramentas abertas, inspecionáveis e adaptáveis;
  • Minimize a complexidade da interface, maximizando a clareza;

Moderação

Simplicidade é um guia — não um limite.

  • Busque a elegância, não o vazio;
  • Aceite a complexidade necessária quando justificada pela função e eficiência;
  • Evite o minimalismo superficial que prejudica a robustez;
  • Atualize as ferramentas apenas quando o valor superar o custo;
  • Use a sofisticação com intenção, não com ego;

6. DOCS – Document Or Considered Scrap

(Documente ou Considere Lixo)

Documentação = Memória

Explicação

Trabalho não documentado é lixo descartável. A documentação é a memória, o ponto de entrada e a camada de sobrevivência de todos os sistemas. Sem ela, nada pode ser reutilizado, transferido ou retomado posteriormente.

Implicação

Se não pode ser explicado, não pode ser reutilizado.

  • Crie um README ou uma nota de ponto de entrada clara para cada projeto;
  • Use notas e comentários estrategicamente;
  • Aplique regras de nomenclatura padrão e automatize a documentação sempre que possível;
  • Preserve contexto, lógica e instruções para reentrada rápida;
  • Mantenha a documentação atualizada e clara;

A documentação deve evoluir — não sufocar.

  • Clarifique o que importa — revise conforme os sistemas amadurecem;
  • Evite documentar recursos que podem ser descartados rapidamente;
  • Use formatos leves e atualize progressivamente;
  • Concentre a documentação na reutilização, não na burocracia;
  • Evite documentar o óbvio;

7. LOOP – Launch, Observe, Optimize, Progress

(Lance, Observe, Otimize, Prossiga)

Aprimorar = Aprender

Explicação

Comece primeiro. Melhore depois. Entregue um produto mínimo viável funcional, observe seu uso e, em seguida, ajuste apenas onde importa. Não aperfeiçoe isoladamente — responda à realidade. Deixe o feedback natural moldar o caminho a seguir. Aprenda na prática.

Implicação

Rascunhe e, em seguida, melhore com propósito.

  • Comece com um produto mínimo viável funcional e publique-o cedo para ganhar momentum;
  • Observe o uso no mundo real para orientar o refinamento;
  • Ajuste os resultados que são visíveis ou impactantes;
  • Trate a primeira versão como teste operacional ou benchmarking;
  • Melhore iterativamente — e siga em frente quando for suficiente;

Moderação

Lance rápido — mas não de forma descuidada.

  • Evite refinar sistemas invisíveis, a menos que necessário;
  • Garanta que as primeiras versões públicas atendam aos limites mínimos de qualidade;
  • Aperfeiçoe mais a interface (forma) do que o back-end (função);
  • Equilibre velocidade com confiabilidade e usabilidade;
  • Itere apenas quando o feedback ou o uso justificar;

8. SYNC – Scale Yield by Network Collaboration

(Aumente o Resultado pela Colaboração em Rede)

Escala = Cooperação

Explicação

O trabalho se multiplica quando feito em colaboração. A ação paralela entre diversas habilidades cria um efeito sinérgico que excede em muito o esforço individual. A colaboração não é meramente aditiva — é multiplicativa. Cada colaborador traz um papel único e, através de interfaces bem definidas e entendimento compartilhado, a equipe se torna um sistema.

Implicação

A escala emerge da cooperação estruturada.

  • Forme equipes compactas com papéis distintos e um senso compartilhado de propriedade;
  • Desenhe interfaces claras entre os papéis, mantendo o entendimento do sistema completo;
  • Use a estrutura da equipe para promover a corresponsabilidade e o controle de qualidade integrado;
  • Compartilhe crédito, visibilidade e recompensas — evite acumular recursos ou reconhecimento;
  • Construa sistemas de comunicação com reuniões pré-agendadas, registros de decisões assíncronas e mínimo atrito;

Moderação

Sincronizar não significa criar uma multidão.

  • Evite equipes superdimensionadas que diluem a responsabilidade e reduzem o apego ao trabalho;
  • Mantenha uma estrutura baseada em pares com diversas funções — mas compromisso compartilhado com a excelência;
  • Trabalho criativo profundo só é possível durante o isolamento imersivo, portanto, respeite a autonomia dos colegas;
  • Evite sobrecarga de comunicação agrupando mensagens na escala semanal ou superior;
  • Atribua funções de supervisão de qualidade — não superpovoem o processo de revisão;

Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Parque da Gruta, Santa Cruz do Sul
Data: Outono de 2025

Comentários

2 respostas para “zênite”.

  1. Avatar de ceduardosl00

    Iporã, para mim foi uma grata surpresa me esbarrar nesse seu texto. Devidamente lido e recomendado para os colegas.

    Os 8 princípios elencados são, sem dúvida, um norte para evitar uma produtividade adoecedora, a qual somos muitas vezes direcionados sem perceber.

    Abraços!

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  2. Avatar de Giovanna H C
    Giovanna H C

    Gosto de como uma mente voltada ao serviço à vida funciona bem pra guiar e orientar outros à como fazer o mesmo de maneira saudável. É claro pra mim que cada formação de cada um altera a percepção do que isso significa e como fazê-lo, e que a tua, Iporã, se volta à projetos, mesmo que de forma abrangente. Valeu a leitura! 😁✨️

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