O Rio Grande do Sul é um lugar com tradição em polêmicas e divisões aguerridas. Isso reflete a baixíssima capacidade de comunicação de seu povo e não deve ser motivo nenhum de orgulho. As polêmicas se expandiram até mesmo para aspectos científicos e técnicos, como a discussão se o Guaíba é um rio ou um lago.
No caso, eu tenho a opinião de que é um lago.
Mas antes de trazer alguns pontos mais consistentes sobre isso, vejo que é preciso preparar o terreno, revisando como não argumentar sobre o Guaíba.
leia também: como argumentar sobre o Guaíba
falácias e vieses
Um argumento legítimo a favor de uma dada nomenclatura geográfica para o Guaíba deve ser um argumento ancorado em bases da geografia física.
Toda proposição que fuja de uma base geofísica, não é um argumento racional, mas um desejo subjetivo. Isso parece óbvio, mas a discussão em torno do Guaíba está tomada por falácias e vieses, resumidas a seguir.

pura implicância
Uma das falácias mais presentes nessa discussão, mas nem sempre admitida em público, é o argumento contra a pessoa, ou argumentum ad hominem. Essa falácia busca afirmar que o Guaíba é um rio por pura implicância com o mais famoso proponente de que o Guaíba é um lago, o professor Rualdo Menegat. A falácia pode ser resumida pelo seguinte raciocínio:
Fulano diz que o Guaíba é um lago. Mas eu não gosto de Fulano. Então ele só pode estar errado e o Guaíba é um rio!
falou, tá falado
O apelo à autoridade, ou argumentum ad verecundiam, também é comum nessa trama. Essa falácia é o contrário do ad hominem, pois ocorre quando se usa as credenciais dos proponentes da afirmação como se fossem suficientes para encerrar o assunto. Essa falácia pode ocorrer de ambos os lados, mas já tivemos mais “carteiraços” no caso do rio, quando o IBGE definiu o Guaíba em um mapa como rio, sem grandes explicações.
A instituição X ou Doutor Sicrano afirma que o Guaíba é um rio (ou lago, etc). Então, por isso, o Guaíba é um rio (ou lago, etc)!
o povo que manda
Outra falácia que anda pelos corredores é o chamado apelo aos costumes, ou argumentum ad populum e suas variantes, que são formas disfarçadas de conservadorismo. Nesse caso, a proposição busca afirmar que o Guaíba é um rio simplesmente porque a maioria da população prefere chamar de rio. Uma das hibridizações com o apelo à autoridade é apelar para a nomenclatura histórica, como apontar mapas e cartas náuticas antigas que denominam o Guaíba como rio.
Desde sempre se falou que o Guaíba é um rio. Então o Guaíba só pode ser um rio!

aos inimigos, a lei
A inversão de causa e efeito é de longe a mais poderosa falácia na questão do Guaíba. Em especial, ela também se funde com um viés de confirmação, que faz os cidadãos defenderem que o Guaíba é um rio em razão do que isso implica legalmente, de acordo com o Código Florestal. O raciocínio é o seguinte:
A orla do Guaíba deve ser pública, livre dos avanços da especulação imobiliária! A proteção legal das margens para rio é mais restritiva que a proteção legal para lago. Então o Guaíba só pode ser um rio, já que isso garante mais proteção das margens.
Como ficaria a opinião nesse caso, se a lei de repente fosse invertida, e o lago agora garantisse mais proteção? A opinião mudaria para lago?
Não me levem mal. Eu acho que a orla deve ser 100% pública para que o Guaíba possa ser apreciado de forma democrática. Mas querer isso não implica automaticamente em classificar o Guaíba como um rio.
tudo junto e misturado
Certa vez, em um debate promovido pelo IAB, testemunhei um senhor defender a tese de “Rio Guaíba” com todas essas falácias ao mesmo tempo, em um nível claramente esquizofrênico.
Na ocasião, a implicância com o prof. Menegat escalou para a difamação pública, descambando para uma grande teoria da conspiração em que a especulação imobiliária era a verdadeira responsável pela classificação de lago, como se não existisse nenhum argumento técnico nesse sentido.
Com o que organizei aqui, espero que agora temos meios de avançar para algo mais sóbrio.
Foto de capa: Iporã Possantti
Dispositivo: samsung SM-S901E
Local: Lago Guaíba, Menino Deus
Data: Outono de 2025

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